Mas olha de verdade, me olha por dentro, sem nenhum pudor, sem nenhum rancor, me olha até suas retinas encontrar o meu ego já meio machucado, meus pulmões demasiadamente fortalecidos após tantas lágrimas – se isso faz algum sentido eu não sei, mas é ditado de vó.
Tá me enxergando agora? Desprendida de qualquer orgulho, ou ego inflado.
Não sou tão ruim quanto pareço, nem tão vazia como você chegou a pensar. Tem um pouquinho de peônia aqui, um pouco de orquídeas à cola, só pra me deixar um pouco com cara de “lar”. Não fui feita pra sofrer, mas na realidade, quem foi? Talvez me falte um pouco de tato pra lidar com os dias ruins. Esses olhos pequenininhos aqui sorriem bem mais que essa boca que prefere calada ficar. A fisionomia pode até parecer meio séria, mas no fundo ela sorri, no fundo ela só ri.
Olha mim, mas olha como se fosse desbravar os segredos mais ocultos. Talvez eu seja como uma gruta, pode ser difícil chegar até lá, o caminho não é dos mais fáceis, mas só que quem chega até o final consegue ver as águas intensamente azuis e transparentes que ali se escondem. Conseguirá encontrar as mais belas poesias nas entrelinhas do barulho das águas, e o nadar dos peixes.
Olha pra mim, mas me olha de verdade, presta atenção a cada detalhe dos meus gestos, desde a simples mania de mexer no cabelos, até a de morder o lábio inferior quando estou pensando, mas não olhem para elas como as fossem mais umas das minhas manias bobas, tem mais significados escondidos nelas do que você possa imaginar.
Presta atenção nesse meu jeito calado, que pouco fala, mas que muito observa, que pouco diz, mas muito se pensa. Presta atenção nos sinais que eu lhe dou, pra tudo o que eu não falei, mas disse em segredo pelo meu olhar enquanto conversávamos, e todas as entrelinhas escondidas no meu sorriso de canto de boca.
Olha dentro de mim, se permita olhar-me além de toda a minha armadura que criei para não me machucar mais ao longo do caminho. Olha como meu sangue pulsa, e como minhas veias saltam, e o coração pula no instante que você chega. Olha como eu te olho, sem máscaras, sem nenhum tipo de jogo, ou blefe. Pelo menos dessa vez, um vinho e um filme francês, ou um pouco de Chico talvez. Coloca pra tocar, e me chama pra dançar, olha bem no fundo dos meus olhos, e veja o mundo que eu tenho pra te dar, ouça os gritos do meu silêncio, e me presenteie com o seu sorriso mais lindo, olha assim pra mim, que só assim eu vou saber que dessa vez é de verdade.
