Volta e meia encontro alguém desagradável que insiste em me lembrar de nós, seja em um café, em um almoço em família, ou naquele pub em que costumávamos ir juntos, ainda há quem me questione sobre você. “E você e o fulano, já acabou?” Irônico ou não, mas mesmo após alguns meses eu ainda não tenha uma resposta para isso.
Por mais que ache que isso deveria ser uma obrigação da minha parte, prefiro ficar em silencio, com aquele sorriso amarelo, desejando cavar um buraco, e me enfiar nele ali mesmo, sorrio pra tentar dizer que eu não tenho a mínima ideia, ou até tenho, sei lá, só prefiro tocar nesse assunto, pois é muito mais louco, e complicado do que pode parecer.
E além do mais, o que eu poderia dizer? Que a gente nunca chegamos a começar nada, e talvez seja por isso você se sentiu obrigado a ir quando a vida passou a lhe exigir mais? Que teve medo de segurar minha mão no momento que eu mais precisei de ti, e isso fez com que tudo o que a gente tinha, e o que ainda poderíamos ter desmoronasse sobre mim, não consegui segurar as minhas inseguranças junto com as suas.
Dói ter que admitir que eu chorei por alguns dias e noites, perdi algumas noites de sono, tudo isso na tentativa de entender o que houve para o seu corpo não estar mais ao lado do meu nessa cama tão imensa? Não deu, nem nunca vai dar para explicar para quem quer que seja que na verdade, você nem chegou a se tornar meu namorado, e que nunca precisamos terminar nada, já que nos faltou muito mais que coragem para começar o que quer que fosse.
Tu sabes que não sou boa em vocalizar tudo que sinto e penso. Só consigo traduzir meu sentimento com um punhado de caracteres misturados. Meu coração não é pauta na minha vida, e muito menos para conversas paralelas na mesa de um bar. Prefiro deixar no mudo o que o peito grita. E quando eu te sair por aquela porta, as únicas palavras que consegui proferir foi “deixa a cópia da chave com o porteiro”, não era exatamente o que você esperava, mas o que mais queria de mim? Tu reviraste os olhos, e parou na minha frente, com cara de cãozinho que ficou sem o osso, como se estivesse esperando um pouco mais. Acontece que eu também esperei mais da gente, e nunca tive. Eu queria mais do que uma “não relação” cheia de regras, talvez eu tenha cansado de meio termos, e estivesse esperando um registro oficial cheio deles. Queria mais do que um café com leite, não que nossa relação fosse café com leite.
Talvez eu quisesse me afundar em uma pessoa rasa demais. Meu erro foi permanecer naquele comodismo todo que vinha acabando aos poucos com o que poderíamos ser, quem sabe um dia. E antes que eu pudesse pedir um café coado e extra forte, sem leite, você solicitou a sua saída dessa história. E eu aceitei. O que eu queria que fizesse? Chorasse? Implorasse? Não consigo prestar esse papel, mesmo sendo você. Não posso viver uma história se não há reciprocidade, se quer ir, vá. Ninguém é obrigado a ficar. Você se foi, sem traduzir o que nós fomos. Se é que a gente chegou a ser alguma coisa.
Não fomos nem apenas bons amigos e nem nos arriscávamos a ser um casal, vivíamos brincando em cima do muro, dentro de um meio termo cheio de pequenas regras, mas que não ousava chegar perto de ter alguma magnitude. Fomos aquilo que por um triz quase deu certo, mas que no fim acabou se desacertando. Se não fomos nada ou se chegamos a ser muito: quem pode nos dizer? Sei lá, talvez tenha tido amor. E isso poderia ter sido a base de tudo para que pudéssemos navegar de modo menos instável, mas você decidiu abandonar o barco antes de sairmos da terra firme, e despeou toda a responsabilidade de tudo que deixamos de ser em cima de mim. Me olhou como se eu houvesse estragado tudo. E tudo o que eu queria saber, tudo o que? Sugerindo com os lábios mudos que gritavam que eu tinha que fazer alguma coisa. Respirei fundo, forcei minhas lagrima fazer o caminho reverso, e voltar pra onde elas não podiam nem cogitar sair, enrijeci meu corpo, impedindo minha a alma de falar mais alto que meu cérebro que finalmente resolveu trabalhar, e pedi pra tu não esquecer de deixar as chaves. Se é para ir, quero uma garantia que não iras voltar. Já nunca fomos nada, não havia motivos para permanecer não sendo.
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