Imagino que não queira, e nem consiga dizer tudo o que está sentindo nesse momento. O nó que está na sua garganta não deve desatar tão fácil.
E é natural que a saudade venha apertá-la a cada vez que a música de vocês tocar, a cada vez que você sentir o perfume dele em algum ser que acabará de passar ao lado, seja no escritório, na fila do banco ou no barzinho com os amigos. Vai doer cada vez que aquele filme passar na sua mente, só para lembrar do buraco que ficou no lugar.
E ás vezes você tem até a impressão de que sua memória faz questão de jogar tudo o que passou na sua cara todo instante. Desde o momento em que põe os pés no chão, até nos últimos segundos de luta contra a insônia.
E em mais uma luta pra tentar descobrir as possíveis causas do fim, você julga o culote que insiste em sobressair quando está de jeans, as suas atitudes impensadas tomadas ao longo da vida, e até o seu hálito que sempre fora tão fresco quanto sua cabeça.
E esse monte de gente tentando lhe dar atenção? Não conta? – Baixinho de mais, inocente de mais, chato de mais. – Não, apenas não.
Você não ousa ao menos cogitar a hipótese de voltar a sentir algo semelhante por alguém. Como pode julgar um cara tão perfeito, com toda a indiferença que ele dá a você, um cara que conseguiu definhar toda a sua capacidade de sorrir a cada esquina, e de sorrir com uma simples troca de mensagens com alguém possivelmente interessante ou ao menos voltar a se interessar pelo seu reflexo no espelho?
Ele vai dirigir 180km, e bater a sua porta às 23:45 de uma quarta-feira, com a coleção de CD’s do Chico, uma garrafa de merlot, dizendo que só agora percebeu o quanto é especial, e não consegue viver sem ti. Vai dizer que sua mãe é como uma segunda mãe para ele, e te beijar antes que você possa questionar alguma coisa. (Sim, eu sei o quanto gostaria que isso fosse real, mas ele não vale nem 1 real).
Enquanto você insiste em chorar o velório de uma história que talvez só tenha feito sentido, e vivido em você, o defunto ressuscitou e está aproveitando a vida dele por aí. Beijando a boca de outras tumbas sem lembrar da existência da sua, ouvindo as ‘’nossas’’ músicas que nunca lhe pertenceram, sem pensar em qualquer memória ou afeto seu sobre o refrão ou a ponte.
Sim, você é incrível e maravilhosa como um pedaço de picanha angus. E é assim que ele a enxerga, e só você não enxerga.
Pare de ser criativa com as suas inúmeras desculpas para tentar cercar uma presa que na verdade sempre foi o predador de todas os momentos que poderiam ocorrer se caso estivesse disposta a se dar uma chance.
Chega até ser pecado ficar assistindo a vida acontecendo do sofá, só porque tens medo de se levantar e abrir a porta.
Encare a realidade de frente como se fosse um presente, um jeito mais adequando que o tempo julgou ser para lhe dizer que perda ás vezes é sinônimo de ganho, e existe uma incalculável diferença entre ser e estar feliz. O nosso problema é transformar a dor em um bichinho de estimação e aprender a conviver com ela, mesmo que ela cresça e fique impossível de carregue-la no colo. É preciso ter discência pra saber quando algo já esta impossível de conviver. Assim, o medo de se machucar some, pois se existe realmente em nós a intenção de amar, é preciso muita força para aceitar as fraquezas do outro.

