É melhor não entrar agora. Vai acabar se assustando e consequentemente se perdendo no meio do meu caos. Fique aí na varanda, se quiser, melhor me observar apenas de longe. Vai perceber que ultimamente minha vida virou um campo minado. Quase impossível viver e não ganhar um par de escoriações por dia.
Não é nada com você. E por mais clichê que isso possa soar, o problema sou eu. Não é o seu capricórnio com ascendente em libra, isso e mais todo o seu jeito e manias irritantes eu aguentaria, confesso que isso até me divertiria. Acontece que estou submersa em um mar de incertezas, das quais não quero que ninguém venha se afogar na inútil tentativa de me salvar. Não posso voltar à superfície enquanto não encontrar as respostas para minhas perguntas. Consegue me entender?
Puxa uma cadeira, espera que a tempestade acabe. Assim que o sol voltar, abro as portas e as janelas, e finalmente te deixo entrar. Vou ficar olhando pelo vitrô da sala se ainda está aí. Espero lhe ver olhando para o meu jardim de um jeito meio distraído, e ao mesmo tempo encantado, curioso para saber o que se encontra dentro da casa amarela, e cheia de janelas.
Deixa eu largar o cigarro, o álcool, e todos os meus pequenos vícios, principalmente o de me trancafiar dentro de mim mesma junto com meus medos. Espera eu aprender a libertá-los. Ainda não estou pronta para ser o pouso de alguém, entende? Sou um mar em tormenta constante, não dá para navegar.
Me trancar dentro de casa não é uma ideia tão estúpida quanto você pode estar pensando. Ainda mais quando existe alguém que se encaixa tão bem no meu quebra cabeça. Mas tô me arrumando, me acertando, sincronizando meus pensamentos, e arrumando milimetricamente cada móvel, limpando com álcool cada canto empoeirado com meu passado. Quero deixar minha alma transparente para quando você entrar. Não posso te deixar entrar agora, se nem eu consigo conviver comigo mesma, sem ficar com um punhado de nós na garganta assim que a manhã entra.
Deixa eu aprender a sorrir sem máscaras novamente, que prometo não parar de sorrir para você. Deixa eu aprender a me entender, para depois oferecer alguma compreensão a ti. Deixa eu me relacionar comigo mesma, para depois vir a ter algum tipo de relação contigo.
Me deixa levantar sozinha, assim posso te abraçar de pé, e te olhar no fundo dos olhos, e me apresentar de verdade, mostrar quem eu realmente sou quando não sinto tanta dor.
Deixa eu parar de ser tão babaca antes de te deixar entrar. Deixa eu encontrar um pouco de amor em mim mesma, para poder multiplicá-lo e finalmente lhe oferecer algo realmente bom. Deixa eu ser um pouco minha, para que depois eu possa vir também ser sua.
